• Carta de adeus…

    Adeus, amor da minha vida.

    Hoje a estrada entre nós finalmente se fecha.

    A porta que existia, mesmo torta, mesmo ferida, mesmo sustentada por fios quase invisíveis, se encerra devagar. E agora cada um fica de um lado dela, ouvindo o silêncio que sobra depois daquilo que não conseguiu sobreviver.

    Eu sei que preciso ir embora.
    Mas você sabe… eu nunca soube partir.

    Sempre fui daquelas pessoas que ficam até depois do fim. Que continuam sentadas na fumaça do incêndio tentando salvar as cinzas com as próprias mãos. Ridículo, eu sei. Humano também. Infelizmente vocês vêm sem manual de instrução emocional e depois fazem esse estrago uns nos outros.

    Eu sei que você não queria ficar. Pelo menos era isso que suas palavras diziam.
    Mas seu olhar… seu olhar nunca conseguiu mentir pra mim.

    E talvez essa tenha sido a parte mais cruel de tudo.
    Porque enquanto sua boca dizia “não posso”, seus olhos me abraçavam. Enquanto você dizia que precisava ir embora, seu corpo permanecia. Enquanto tentava me afastar, alguma coisa em você me puxava de volta. E eu me agarrei nisso. Meu Deus… como eu me agarrei nisso.

    Eu queria tanto que fosse você.

    Queria que fosse você chegando no fim do dia.
    Você reclamando da vida enquanto tomava café.
    Você jogado no sofá da nossa casa bagunçada.
    Você implicando comigo por qualquer bobagem.
    Você sendo meu porto e meu caos ao mesmo tempo.

    Eu acreditei naquele nosso pequeno mundo escondido.
    Nos planos sussurrados no meio da madrugada.
    Nas risadas dentro do carro.
    Nos lugares onde ninguém sabia da gente.
    No jeito que a gente se reconhecia sem precisar falar.

    Porque a verdade é que eu nunca precisei de grandes promessas suas.
    Bastava quando você me olhava daquele jeito.
    No teu colo eu encontrei uma paz que nunca tinha conhecido antes.

    Nos teus braços eu conseguia descansar da guerra que sempre existiu dentro de mim. Ali eu não precisava fingir força, não precisava ser personagem, não precisava carregar o mundo nas costas. Ali eu podia simplesmente ser.
    E era ali que eu queria ter ficado.

    Mas amar alguém também é entender quando a pessoa não consegue te escolher.
    Mesmo que isso despedace tudo por dentro.
    Você não podia ficar comigo.

    E talvez eu tenha passado tempo demais tentando convencer nós dois do contrário. Talvez eu tenha transformado migalhas em esperança porque precisava acreditar que existia alguma salvação nisso tudo. Só que amor sozinho não sustenta um mundo inteiro quando a realidade começa a cobrar a conta.

    E ela cobrou.
    Cobrou caro.

    Ainda assim, apesar de toda dor, apesar de tudo que desmoronou, eu não consigo transformar você em algo ruim dentro de mim. Não consigo odiar você. Não consigo apagar o que vivi ao teu lado. Porque foi real pra mim. Intensamente real.

    Vou guardar cada detalhe no lugar mais bonito que existe em mim: o som da tua risada, o jeito que você me chamava, as conversas bobas, os silêncios, os abraços, os cafés, as esperas na janela, o coração acelerado quando você chegava.

    Vou lembrar de mim preparando pão de queijo e algum docinho só porque você vinha. Vou lembrar de você dizendo que eu era “grudezinho”, enquanto eu sorria feito uma idiota só por ter você perto.
    E agora eu faço o que você me pediu.

    Eu vou embora.

    Talvez pela primeira vez sem insistir, sem correr atrás, sem puxar tua mão quando você decide partir.

    Mas existe uma verdade que preciso te confessar antes do fim: uma parte de mim sempre vai esperar você.

    Talvez não da forma doentia e desesperada de antes. Talvez não presa nesse passado. Mas em algum canto silencioso do meu coração, vai existir uma cadeira vazia na varanda, um café passado e uma esperança pequena de que um dia você apareça de novo… pronto… inteiro… capaz de amar sem fugir.

    E se isso nunca acontecer, tudo bem também.

    Porque algumas pessoas não vêm pra ficar.
    Vêm pra atravessar a nossa vida e mudar completamente quem somos.

    Você mudou a minha.

    Se não for nessa vida, quem sabe na próxima.

    Talvez em outro tempo, outro mundo, outra versão nossa menos quebrada. Onde o amor não precise nascer escondido, nem sobreviver entre culpa, medo e despedidas.

    Até lá… eu sigo.

    Com todo amor que ainda existe aqui dentro.

    Daquela que um dia foi o teu coração.

  • Vidas Paralelas

    Existem histórias que não se cruzam.
    Elas correm lado a lado, em trilhos distintos, obedecendo regras, horários, compromissos.

    E existem aquelas que, por um erro mínimo de cálculo… se encostam.

    A nossa é assim.

    Duas vidas inteiras, já construídas, já ocupadas, já comprometidas com tudo aquilo que exige permanência…
    e, ainda assim, atravessadas por um encontro que não pediu licença.

    De um lado, eu.

    Uma vida organizada, previsível, sustentada por estruturas que não se desfazem com facilidade.
    Um papel bem definido, um lugar ocupado, uma rotina que segue, mesmo quando o coração já não acompanha.

    Do outro, ele.

    Uma história mais complexa, mais carregada, com raízes profundas que não se arrancam sem levar metade do mundo junto.
    Filhos, responsabilidades, decisões passadas que ainda ecoam no presente.

    E no meio disso tudo…

    Um ponto de fuga.

    Um espaço onde nossas linhas deixam de ser paralelas e se encontram.
    Onde não existe antes, nem depois.
    Só o agora.

    Ali, não somos versões fragmentadas.
    Não somos papéis.
    Não somos obrigações.

    Somos escolha.

    Ele me olha como se eu fosse um respiro dentro da vida dele.
    Eu olho pra ele como se ele fosse aquilo que faltava pra minha finalmente fazer sentido.

    E por um instante… tudo encaixa.

    Mas o problema das vidas paralelas
    é que elas não foram feitas pra se tornarem uma só.

    Elas podem se tocar.
    Podem caminhar próximas por um tempo.
    Podem até compartilhar alguns trechos…

    Mas, no fim, cada uma precisa continuar no seu próprio caminho.

    E é aí que mora o conflito.

    Porque quando estamos juntos, parece possível.
    Parece simples.
    Parece até inevitável.

    Falamos de futuro como quem desenha algo que já existe em algum lugar do tempo.
    Planejamos finais como se soubéssemos exatamente como tudo vai acontecer.

    Mas quando voltamos…

    Ele volta pra vida dele.
    Eu volto pra minha.

    E as linhas, que por um momento se cruzaram,
    voltam a correr lado a lado… sem se tocar.

    Ainda próximas.
    Ainda conscientes uma da outra.
    Mas separadas.

    E talvez o mais difícil não seja aceitar que existem duas vidas.

    É saber que existe um ponto onde elas se encontram…
    e não poder viver apenas nele.

    Porque ali, naquele pequeno desvio do destino,
    nós dois somos exatamente aquilo que gostaríamos de ser.

    Mas fora dali…

    Somos aquilo que ainda precisamos ser.

    E ainda assim, algo mudou.

    Porque depois que duas linhas se encostam,
    elas nunca mais seguem completamente indiferentes.

    Existe uma memória silenciosa correndo junto,
    um desvio imaginário que insiste em aparecer,
    um “e se” que acompanha cada passo.

    Eu sinto isso nos intervalos.

    Nos momentos em que tudo deveria ser suficiente,
    mas não é.

    No silêncio que não preenche,
    no toque que não desperta,
    na rotina que continua… mas já não convence.

    E eu sei que ele também sente.

    Não da mesma forma, não no mesmo tempo…
    mas sente.

    Porque ninguém atravessa um encontro assim
    e volta intacto.

    Só que sentir não é o mesmo que mudar.

    E é aqui que as nossas linhas tremem.

    Porque entre o que a gente vive
    e o que a gente sustenta
    existe um abismo chamado realidade.

    E a realidade não se move com promessas sussurradas no escuro.
    Ela exige ruptura, escolha, consequência.

    Coisas que não cabem naquele lugar onde tudo era leve.

    Então seguimos.

    Nos encontrando onde é possível.
    Nos afastando onde é necessário.
    Equilibrando desejo e razão como quem anda sobre um fio.

    Às vezes acreditando que, em algum momento,
    essas linhas vão finalmente se unir.

    Às vezes entendendo que talvez
    elas só tenham sido feitas pra isso mesmo:

    Se tocar.

    Mudar de direção por um instante.

    E depois… continuar.

    Mas com a diferença de que agora sabemos.

    Sabemos que existe algo além da linha reta.
    Além do previsível.
    Além do que sempre foi.

    E talvez seja isso que mais desorganiza.

    Não o fato de sermos paralelos.

    Mas o fato de termos descoberto
    que, por um breve momento,

    nós deixamos de ser.

  • Entre o que se vive e o que se mostra

    Existe uma diferença silenciosa entre aquilo que se vive…
    e aquilo que se mostra.

    E eu nunca tinha sentido isso com tanta força até agora.

    Há dois dias, éramos nós.

    Sem plateia, sem legenda, sem testemunhas.
    Só dois corpos que se encontravam como se o mundo tivesse dado uma pausa.
    Só dois olhares que diziam mais do que qualquer palavra pública jamais poderia sustentar.

    Ali, eu era escolhida.
    Ali, eu era prioridade.
    Ali, eu era… tudo.

    Não porque alguém escreveu.
    Mas porque foi sentido.

    E então veio a imagem.

    Uma tela.
    Uma foto.
    Um sorriso compartilhado.
    Uma frase simples, quase comum, mas carregada de um peso que atravessa.

    “Minha rainha.”

    E de repente, o mundo voltou.

    Não com delicadeza.
    Mas com precisão.

    Porque o que se mostra… organiza a realidade.
    Define lugares.
    Dá nome às coisas.

    E eu não estou ali.

    Não estou na legenda.
    Não estou no enquadramento.
    Não estou na história que pode ser vista, curtida, comentada.

    Estou no invisível.

    No que não se publica.
    No que não se assume.
    No que não se sustenta fora de um espaço protegido.

    E é estranho perceber que algo pode ser tão verdadeiro…
    e ainda assim não existir onde importa para o mundo.

    Porque o que vivemos não foi mentira.

    O toque foi real.
    O cuidado foi real.
    As palavras… talvez até mais reais do que a própria foto.

    Mas a realidade não se organiza pelo que é sentido no privado.
    Ela se revela pelo que é mantido no público.

    E hoje, o público falou.

    Falou através de uma imagem simples, quase banal,
    mas que carrega uma verdade impossível de ignorar:

    Existe uma vida onde ele pertence.
    E eu não faço parte dela.

    Não dessa forma.
    Não desse jeito.
    Não com nome, nem com lugar.

    E então eu entendi algo que talvez já estivesse claro desde o início,
    mas que eu escolhi não olhar de frente:

    Entre o que a gente vive
    e o que a gente assume

    existe um abismo.

    E eu estou exatamente no meio dele.

    Porque eu conheci um lado dele que não aparece.
    E agora fui lembrada, da forma mais crua possível,
    de qual lado realmente sustenta a vida dele.

    E o mais confuso de tudo…
    é saber que os dois lados são reais.

    Mas só um deles…
    existe para o mundo.

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